Ao redor da arte

Acordar às 3h45 da madrugada e ficar pensando exatamente nesse texto. Talvez esse horário de insônia meio inconveniente para os que acordam cedo sirva pra isso também: trazer lembranças e reforçar sonhos ou vontades que não foram realizados, mas nem por isso eu deixei de amá-las, querê-las e guardá-las em meus pensamentos. Ao redor da arte fala sobre uma parte expressiva de mim.

A missão agora é fazer uma linha do tempo sobre as artes que estiveram ao meu lado desde muito nova, até mesmo sem entender o que tudo isso significava pra o meu crescimento individual e coletivo, além de aprender a ter  um olhar mais expansivo sobre essas pequenas coisas cotidianas, essenciais.

Eu começo pela literatura, pela poesia especificamente. Nesse ponto eu destaco um episódio que, não me pergunte o porquê, me marcou muito até hoje. Acredito que era quarta série, lá no SESI, a professora de português passou uma atividade: queria que todos escrevessem uma poesia e depois a recitasse para os colegas de sala. Lembro da maioria fazer cara feia com o pedido, mas eu já fui imaginando o que escrever. Era sobre amizade, mas não me pergunte o que escrevi. Chegou minha vez. Levantei, fiquei extremamente nervosa e, orgulhosamente, recitei minha poesia rimada, sem medo.

Tempos depois estava eu pintando panos de prato. Meu padrinho trouxe umas revistas com vários desenhos de flores, umas folhas transparentes pra copiar o desenho, pincéis e muitas tintas. Virei uma especialista em pintar panos de prato, mas depois me arretei e não tive mais paciência pra isso.

Seguindo a linha do tempo, aparece o desenho. Meu irmão tinha ganhado na época várias apostilhas ensinando a fazer mangás e, confesso mesmo, ele sempre foi muito bom em riscar. Porém, sempre tivemos nossas birras e eu nem de longe poderia chegar perto das pastas que ele guardava os materiais de ensino. Então, quando ele saía de casa, eu pegava as apostilhas escondida e ficava desenhando: uma tragédia! Eu realmente não nasci pra ser desenhista.

Aí chega a época mágica da música, a melhor invenção do planeta Terra. Um primo meu passou uns tempos morando aqui em casa e, timidamente, começamos a investir em letras de rap. Queríamos escrever sobre injustiças sociais, mesmo sem ter a mínima ideia do que isso significava. Nossa carreira não durou muito, umas pequenas rimas e desistimos.

O Sr. Paulo foi o principal personagem dessas “invenções”, ele que trouxe a arte pra cá, a arte pra mim (incluindo vários livros, sou grata até hoje). E, numa dessas novidades que eu nunca tinha visto, ele me aparece com uma cítara. Sim, a cítara é um instrumental musical de cordas, vou deixar um hiperlink pra vocês verem o que é (caso não saibam). Eu amava o som da cítara e foi muito fácil aprender a tocá-la, porque é fácil mesmo. Coloca a partitura embaixo das cordas e depois é só seguir as notas e pronto, a magia acontece.

Eis que, mais tarde, chega um presente: um violão acústico de cordas de náilon com uma cor preta nas laterais e o fundo amarelo. Esse instrumento musical revolucionou a minha vida de uma forma que vocês nem imaginam, lá em meados de 2006. E então, com ele nas mãos, eu tinha a missão de aprender a tocar, claro, mesmo sem ter nenhuma noção de música. Fui pra uma escola de música e passei seis meses aprendendo e tocando, foi o tempo suficiente pra sair e continuar aprendendo de casa mesmo. Foi nessa época também que fiz a minha primeira apresentação ao vivo, tocando “Temporal” da rainha-maravilhosa-diva-poderosa Pitty. Um dos melhores momentos que já passei.

(Quero deixar destacado aqui também, de uma gratidão e amor imenso, à minha prima Carol que teve tanta paciência em ensinar, lá no começo de tudo, meus primeiros acordes. Agradecer também, de toda alma, ao meu eterno primo Henrique, que sempre guardarei na minha memória e coração, por todas as dicas que ele também me deu com a música.)

Foi um vício total. Vivia tocando e cantando e jurando que era uma cantora maravilhosa: não mesmo. Mas, era o meu momento, as minhas músicas preferidas, a liberdade de soltar a voz e tocar todas as músicas que eu quisesse. E, como eu sonhava nessa época de ser vocalista de banda, não perdi nenhuma oportunidade.

A escola que estudava realizou o primeiro festival de música e obviamente lá estava eu com Ingrid (minha dupla de tocar músicas emo) na audição que eles fizeram pra fazer a pré-seleção. Passamos e o desafio foi ainda maior. Tínhamos pela frente uma noite de apresentação no teatro do SESI: se eu quase desmaiava foi pouco, pouquíssimo. Ensaiamos com a banda e, à noite, estávamos prontas pra tocar “Palpite” de Vanessa Rangel. Chamaram o nosso nome e eu louca suando frio me perguntando aonde eu fui me meter. Subimos no palco, peguei o violão e vi aquele ambiente lotado. Mais um dos melhores momentos que já vivi na vida. Ganhamos o segundo lugar e a plateia gritou “marmelada” pra menina que ficou em primeiro. Okay, né? A voz do povo…

Posteriormente, como desejava agora ser uma rockstar, nada melhor do que uma guitarra! Eu não lembro bem, mas eu acho que repeti tanto que queria uma guitarra que acabei ganhando uma de presente das minhas tias e avó. Agora sim, o sucesso estava garantido! A nova Pitty do Brasil! SÓ QUE NÃO. Mas, foi massa ter esse momento e realmente sentir que talvez um dia eu pudesse realmente fazer parte de alguma banda de rock (hoje tenho 23 anos e até agora não aconteceu, é o destino dizendo que não vai rolar monamour).

Segundo ano do ensino médio e o colégio anunciou um festival de talentos. Decão, Filipe e eu nos juntamos e apresentamos “Crush Crush Crush” de Paramore (não vale tirar onda, essa banda era muito foda na época) pra galera “entusiasmada”. Eu sei que esse episódio nos rendeu muitas gargalhadas depois, porque as pivetada que estavam na nossa frente 1) não conhecia a música e 2) fizeram umas caras de “o que é isso que eles estão cantando?”.

Apareceu a faculdade de jornalismo e então fui sentindo que esses pequenos prazeres, o sonho de adolescente de um dia viver de música (assim como tantos outros que temos), não cabia mais nas milhares de disciplinas, provas, seminários, estágio e por aí vai. Fui me distanciando da música e, recentemente, até vendi o único violão que tinha pra depois comprar um mais legal, melhor. Por enquanto ainda não dá, mas a gente vai tendo paciência e sentindo sempre, até nessas madrugadas, que a arte na vida de alguém posiciona o olhar para além de uma visão intermediária.

Você aprende, conhece pessoas, compartilha os interesses musicais e encontra um cano de escape pra esse mundo violento e repressivo. Dessa forma, eu desejo hoje e sempre que a arte salve e seja revolucionária, transforme grandemente as mentes e corpos.

Ps: agora eu tenho um teclado parado, que não sei tocar, e a paixão eterna pela fotografia.

 

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